{"id":1,"date":"2021-10-22T11:02:03","date_gmt":"2021-10-22T14:02:03","guid":{"rendered":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/?p=1"},"modified":"2022-03-23T15:11:03","modified_gmt":"2022-03-23T18:11:03","slug":"melancolia-um-quase-diario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/2021\/10\/22\/melancolia-um-quase-diario\/","title":{"rendered":"Melancolia: Um Quase Di\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Gilbert Daniel da Silva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>As viv\u00eancias que acumulamos no trabalho de campo, em nossas pesquisas etnogr\u00e1ficas, configuram um bloco inteiro de sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o cores, roupas, cen\u00e1rios, paisagens. O que se bebe e o que se come, entre pequenas entrevistas e curiosidades compartilhadas. Sempre a surpresa e o desafio, misturados, em cada espa\u00e7o palmilhado junto com os nativos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso se entregar quando se faz uma pesquisa dessa natureza, e o corpo do pesquisador, o nosso corpo, est\u00e1 sempre ali, por inteiro, mesmo quando algo ou algu\u00e9m insiste em comprometer o trabalho. \u00c9 disto que estou falando, de uma entrega desafiadora, ver\u00eddica, at\u00e9 certo ponto. Testemunhada pelos pr\u00f3prios nativos \u2013 dos campos e das grandes cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tenho comigo que a experi\u00eancia etnogr\u00e1fica \u00e9, sobretudo, uma boa forma de multiplicar o pr\u00f3prio mundo, no contato com outras culturas, nos grupos culturais que escolhemos para estudo. Muito mais do que um \u201cestudo\u201d, estou falando exatamente disso: a antropologia consiste em uma condi\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel para se dizer algo, ainda que o dito nunca esteja a altura daquilo que foi ouvido ou testemunhado. E nunca est\u00e1 a altura porque se trata de uma maneira de dizer que \u00e9 produzida de empr\u00e9stimo, um dito que est\u00e1 sempre em d\u00edvida com aqueles que se dispuseram a participar das nossas pesquisas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos, de certo modo, sempre em d\u00edvida com eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez essa condi\u00e7\u00e3o explique um pouco certa melancolia de quem se dedica ao trabalho de campo. Nossos di\u00e1rios \u2013 s\u00f3 eles sabem \u2013 guardam um pouco dessa qualidade, desse tom eleg\u00edaco, um tanto f\u00fanebre, quando os abrimos anos depois. Ainda os tenho comigo, e quando em m\u00e3os e sob os meus olhos ansiosos, revejo as cenas e palavras como em um pequeno&nbsp;<em>flash<\/em>, um instant\u00e2neo ainda gravado na mem\u00f3ria. E tantos pensamentos retornam ou se desdobram, se reinventam nesses segundos que nos aproximam daquilo que se viveu um dia, uma noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 tudo l\u00e1, como que congelado no tempo. E sempre me vem essa sensa\u00e7\u00e3o de transbordamento, que faz jorrar as sombras, os rostos, os sabores, as ang\u00fastias, as descobertas, as inven\u00e7\u00f5es. Um bloco, sempre em blocos.<\/p>\n\n\n\n<p>E desses blocos, o que vem?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que deles surgem, por um lado, as contradi\u00e7\u00f5es, os movimentos em falso, as d\u00favidas; e por outro, a busca por uma interpreta\u00e7\u00e3o que seja coerente, que se avizinhe daquilo que foi observado, que fa\u00e7a sentido n\u00e3o apenas aos meus olhos, mas que diga algo \u00e0queles que caminharam junto comigo, nas ruas, nas casas e edif\u00edcios, nos bares e galerias.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se fosse poss\u00edvel restaurar esses blocos de sensa\u00e7\u00f5es no cruzamento com as teorias que estudamos, repetidas vezes, cruzamento esse que tamb\u00e9m se articula com a escrita, quando retomamos ao gabinete.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem essa possibilidade, sem essa restaura\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e dos dados apurados, nenhuma etnografia seguiria adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>E se chegamos ao final, j\u00e1 somos parte de um outro, revirado e transformado. Como quem atravessa o rio depois de inventar a canoa e com ela, dentro dela, boiando na travessia das margens, chega do outro lado e o rio n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. Tampouco as margens ser\u00e3o as mesmas.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gilbert Daniel da Silva As viv\u00eancias que acumulamos no trabalho de campo, em nossas pesquisas etnogr\u00e1ficas, configuram um bloco inteiro de sensa\u00e7\u00f5es. S\u00e3o cores, roupas, cen\u00e1rios, paisagens. 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