{"id":1155,"date":"2023-03-06T17:39:39","date_gmt":"2023-03-06T20:39:39","guid":{"rendered":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/?p=1155"},"modified":"2023-03-06T18:06:59","modified_gmt":"2023-03-06T21:06:59","slug":"rituais-de-passagem-e-aprendizagens-de-expressao-dos-sentimentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/2023\/03\/06\/rituais-de-passagem-e-aprendizagens-de-expressao-dos-sentimentos\/","title":{"rendered":"Rituais de passagem e aprendizagens de express\u00e3o dos sentimentos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>Por Tania Dauster <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pergunta frequente no per\u00edodo da pandemia (1): o que ocorrer\u00e1 na p\u00f3s-pandemia? O pressuposto era de que muito do que ocorria nesse per\u00edodo, transferido para rela\u00e7\u00f5es online, poderia permanecer por ser mais eficaz. Isso aconteceu, em parte, na \u00e1rea universit\u00e1ria, onde os autores deste artigo trabalham, bem como no \u00e2mbito das transa\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias, das rela\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, psicanal\u00edticas, religiosas e de pr\u00e1ticas de exerc\u00edcios f\u00edsicos entre outras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste texto nos fixamos no tema do luto no decorrer da pandemia, mais especificamente nos questionamos se a mudan\u00e7a, ocasionada pelo distanciamento f\u00edsico, interferindo no ritual (2) do enterro, mudou o sentimento das in\u00fameras perdas de amigos, parentes, enfim, dos que faleceram. Mesmo assim faremos algumas refer\u00eancias a algumas pr\u00e1ticas surgidas nesse per\u00edodo e que sugerem aprendizagens de outras formas de sociabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para refletir acerca dessas educa\u00e7\u00f5es, aprendizagens, t\u00e9cnicas corporais e interroga\u00e7\u00f5es dividimos este artigo em cinco t\u00f3picos: <strong><em>Ant\u00edgona: o ritual de enterrar os mortos e a insurg\u00eancia civil, O corpo segundo Mauss, Tecnologia virtual &nbsp;e express\u00e3o dos sentimentos, O v\u00edrus em a\u00e7\u00e3o, Aprendizagens e vida social.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ant\u00edgona: o ritual de enterrar os mortos e a insurg\u00eancia civil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em nosso texto nos referimos \u00e0 trag\u00e9dia de S\u00f3focles (3) que abrange, pelo menos, tr\u00eas grandes e constantes aspectos atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, al\u00e9m da morte: a pol\u00edtica, a fam\u00edlia, a insurg\u00eancia civil da mulher e a religiosidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sepultamento do morto \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o consagrada na tradi\u00e7\u00e3o greco-latina, um ato que, na sua dignidade, associa-se a uma celebra\u00e7\u00e3o de amor, uma rever\u00eancia \u00e0 mem\u00f3ria do defunto e \u00e0 ideia de respeito \u00e0 dignidade da pessoa humana em diferentes contextos \u00e9ticos e culturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O culto aos mortos atravessa os s\u00e9culos e culturas e, ainda hoje, embora com rituais diferenciados, tem o mesmo significado:&nbsp; homenagear os que partiram, preservar a lembran\u00e7a dos que se foram e sepult\u00e1-los respeitosamente segundo tradi\u00e7\u00f5es e valores sociais e religiosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Retornando \u00e0 Ant\u00edgona (3). Ant\u00edgona \u00e9 filha de \u00c9dipo, cujo destino o fez matar o pai e desposar a pr\u00f3pria m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Instala-se, inconscientemente, no princ\u00edpio da trag\u00e9dia, uma fam\u00edlia que chamar\u00edamos de incestuosa, uma vez que \u00c9dipo \u00e9 filho e esposo de Jocasta, sua m\u00e3e e esposa, e vir\u00e1 a ser pai e irm\u00e3o tanto de Ant\u00edgona quanto dos outros filhos e filhas gerados neste casamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabedores da rela\u00e7\u00e3o incestuosa por Tir\u00e9sias, o profeta, a trag\u00e9dia de suas hist\u00f3rias \u00e9 assim revelada \u00e0 \u00c9dipo e Jocasta. &nbsp;As consequ\u00eancias se seguem dolorosamente. Jocasta comete suic\u00eddio e \u00c9dipo perfura os pr\u00f3prios olhos como se assim evitasse ver os acontecimentos tr\u00e1gicos que o acometeram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9dipo assassino do pr\u00f3prio pai, marido e filho de sua esposa encerra, no seu destino, transgress\u00f5es imperdo\u00e1veis na tradi\u00e7\u00e3o greco-romana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cego, vagando por um mundo desconhecido, foi pela filha\/irm\u00e3 conduzido. Filha que, no final de sua vida, protagoniza o drama de se encontrar, solit\u00e1ria, na tumba de sua pr\u00f3pria morte, condenada pelas leis estabelecidas por Creonte, irm\u00e3o de Jocasta, tirano a quem ela desafiou civicamente ao cumprir o ritual de enterrar, com suas pr\u00f3prias m\u00e3os o seu irm\u00e3o morto, Polinices.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 quem interprete, baseando-se na rela\u00e7\u00e3o radical e passional de Ant\u00edgona com seu irm\u00e3o, um afeto que iria al\u00e9m do fraternal, envolvendo tintas de erotiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Observamos a duplicidade e at\u00e9 a multiplicidade de pap\u00e9is familiares que se estendem aos personagens dessa complexa rede familiar. Contudo cabe a Ant\u00edgona o principal protagonismo. \u00c9 ela que se insurge contra o d\u00e9spota Creonte, irm\u00e3o de Jocasta, seu tio, no seu desejo sagrado e moral de sepultar o irm\u00e3o de acordo com as leis divinas, que considera superiores \u00e0s leis de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Revoltar-se contra Creonte significa a morte bem como uma &nbsp;rebeli\u00e3o &nbsp;civil contra as leis ditadas pelo decreto do tirano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 neste sentido que vemos em Ant\u00edgona tanto a personagem que expressa a dignidade do sepultamento humano, bem como &nbsp;uma &nbsp;das primeiras protagonistas de uma linhagem de mulheres que se insurge contra os poderes autocr\u00e1ticos civis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O corpo segundo Mauss<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O corpo, o corpo morto, est\u00e1 no centro de nosso texto. \u00c9 por isso que buscamos em Marcel Mauss as refer\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o ao significado do corpo e do ritual do luto, que ele denomina de t\u00e9cnicas corporais. Segundo Mauss \u201c\u00e9 poss\u00edvel fazer a teoria da t\u00e9cnica corporal, definindo-a &nbsp;(Mauss, p. 211) como \u201cas maneiras como os homens, sociedade por sociedade e de maneira tradicional, sabem servir-se de seus corpos\u201d. (Idem)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se, no caso, de uma observa\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos sociais pr\u00f3prios de cada sociedade, pr\u00e1ticas inculcadas pela educa\u00e7\u00e3o. Segundo ele o \u201cato imp\u00f5e-se de fora, do alto, ainda que seja um ato exclusivamente biol\u00f3gico e concernente ao corpo\u201d. (Mauss, 215)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 necess\u00e1rio que esse ato seja \u201ctradicional e eficaz\u201d porque \u201cn\u00e3o h\u00e1 t\u00e9cnica e tampouco transmiss\u00e3o se n\u00e3o h\u00e1 tradi\u00e7\u00e3o.\u201d (Idem, 217) E, de forma mais expl\u00edcita: \u201cO corpo \u00e9 o primeiro e o mais natural instrumento do homem. O mais exatamente, sem falar de instrumento, o primeiro e mais natural objeto t\u00e9cnico, e ao mesmo tempo o meio t\u00e9cnico do homem \u00e9 seu corpo\u201d. (Ibidem, 217)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao recorrer a Mauss levamos em conta que ele se refere a sociedades arcaicas, relacionais, onde o todo prevalece sobre as partes. Neste sentido \u00e9 que sublinhamos o car\u00e1ter de <em>linguagem<\/em> que permanece nas manifesta\u00e7\u00f5es de pesar e dor, pois s\u00e3o a\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, parte do patrim\u00f4nio imaterial da civiliza\u00e7\u00e3o greco- latina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, temos, ainda recentemente, hist\u00f3rias das \u201ccarpideiras ou \u201c rezadeiras\u201d participando de vel\u00f3rios segurando velas ajoelhadas sobre esteiras, cantando \u201cAv\u00e9 Maria\u201d.&nbsp; Este comportamento ainda pode ser observado em pequenas aldeias fora dos grandes centros, na \u201cro\u00e7a\u201d, onde havia o h\u00e1bito das not\u00edcias dos vel\u00f3rios serem comunicadas de boca em boca para os parentes e conhecidos acorrerem ao enterro em sinal de respeito. A cerim\u00f4nia, acontecendo em casa, previa um longo ritual, com comida e bebida, al\u00e9m de roda de conversa como parte da despedida. Tudo compar\u00e1vel a uma \u201cfesta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cl\u00e1ssico romance de Jorge Amado \u201cA morte e a morte de Quincas Berro D`\u00c1gua\u201d, transposto para o cinema e para a televis\u00e3o, de forma sard\u00f4nica e fe\u00e9rica, \u00e9 um relato ficcional sobre a tem\u00e1tica em regi\u00f5es de cunho relacional no Brasil. Sinal da diversidade cultural do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse modo de vida outro h\u00e1bito not\u00f3rio consiste na escolha pr\u00e9via da roupa do sepultamento por homens e mulheres. Um enxoval de uso exclusivo para a situa\u00e7\u00e3o selecionado em vida. No cerimonial as mulheres vestiam-se de preto, o ata\u00fade era colocado em cima da mesa, cercado por velas rodeando seu topo, at\u00e9 o momento do f\u00e9retro sair em dire\u00e7\u00e3o ao cemit\u00e9rio situado, frequentemente, ao lado da igrejinha local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Permanecendo na literatura e entrando no reino da poesia&nbsp; recordamos o poema de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto: \u201cMorte e vida Severina\u201d (10), no trecho em que um retirante dialoga com a rezadeira:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">\u201c \u2013 E ainda se me permite<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">que lhe volte a perguntar:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">\u00e9 aqui uma profiss\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">trabalho t\u00e3o singular?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">&#8211;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9, sim, uma profiss\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">e a melhor de quantas h\u00e1:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">sou de toda a regi\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">rezadora titular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">&#8211;&nbsp; E ainda se me permite<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">mais outra vez indagar:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">\u00e9 boa essa profiss\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">em que a comadre ora est\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">&#8211; De um raio de muitas l\u00e9guas<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">vem gente aqui me chamar;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">a verdade \u00e9 que n\u00e3o pude<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">queixar-me ainda de azar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">&#8211; E se pela \u00faltima vez<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">me permite perguntar:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">n\u00e3o existe outro trabalho<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">para mim neste lugar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">&#8211; Como a morte aqui \u00e9 tanta<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel trabalhar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">nessas profiss\u00f5es que fazem<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">da morte of\u00edcio ou bazar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s este fragmento, tr\u00e1gico e ir\u00f4nico, retomamos&nbsp; Mauss que, no texto \u201cA express\u00e3o obrigat\u00f3ria dos sentimentos\u201d (p. 147), comenta o significado das l\u00e1grimas, nas manifesta\u00e7\u00f5es de dor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O choro, ao inverso do que se possa pensar, n\u00e3o estaria circunscrito apenas a fen\u00f4menos psicol\u00f3gicos e fisiol\u00f3gicos, \u201cmas abrangeria fen\u00f4menos sociais, marcados por atua\u00e7\u00f5es n\u00e3o-espont\u00e2neas e da mais perfeita obriga\u00e7\u00e3o\u201d (Idem, p. 153), sendo tais manifesta\u00e7\u00f5es direcionadas aos que nos observam em um evento coletivo, como \u00e9 o caso do sepultamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;A participa\u00e7\u00e3o de \u201ccarpideiras\u201d ou \u201c rezadeiras\u201d no ritual relacional brasileiro, que foi mencionado no fragmento do poema de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, pode servir como exemplo para a interpreta\u00e7\u00e3o de Mauss, pois s\u00e3o mulheres que acorrem aos funerais para prantear o defunto. N\u00e3o s\u00e3o aparentadas, mas t\u00eam este papel social&nbsp;&nbsp; reconhecido pela comunidade, atrav\u00e9s do que representam e da forma pela qual se agruparam a partir de certas caracter\u00edsticas femininas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mauss constr\u00f3i a no\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnica corporal a partir da observa\u00e7\u00e3o do concreto (p.212,1974), como imposi\u00e7\u00e3o da sociedade e da educa\u00e7\u00e3o sobre os indiv\u00edduos. Para ele as t\u00e9cnicas corporais podem ser enumeradas e exemplificadas por g\u00eanero, por idade, e est\u00e3o presentes, entre outros exemplos, nos h\u00e1bitos de higiene do dia a dia, bem como nas formas de se alimentar, de andar, ou seja, nas diversas montagens fisio-psico-sociais que representam a \u201cautoridade social\u201d (Ibid. p. 231, 1974,).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tecnologia virtual e aprendizagens de express\u00e3o dos sentimentos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acerca da tecnologia virtual, podemos nos interrogar at\u00e9 que ponto ela vem moldando nossas a\u00e7\u00f5es, nossas formas de atuar e, n\u00e3o menos significativo, a maneira de revelar nossos sentimentos. Estaria a tecnologia digital conformando nossa maneira de pensar, de atuar e, ao interferir em nossos rituais, ressignificando nossos sentimentos? E, ainda, retornando a nossa quest\u00e3o inicial, as formas de express\u00e3o de luto, durante o per\u00edodo da pandemia, mudaram o sentimento que lhe corresponderia na p\u00f3s-pandemia?&nbsp; Como se manifestariam nas t\u00e9cnicas corporais e,&nbsp; em que medida, as formas de comunica\u00e7\u00e3o teriam influenciado essa eventual mudan\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa suposta transforma\u00e7\u00e3o estaria sendo assimilada, &nbsp;inconscientemente, no momento em que a vivemos no dia a dia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devemos levar em conta que o processo que ocorreu no per\u00edodo da pandemia n\u00e3o foi linear nem homog\u00eaneo. Variou de acordo com quest\u00f5es relacionadas \u00e0 pol\u00edtica, bem como \u00e0 diversidade cultural e sanit\u00e1ria em nosso pa\u00eds, conhecido por sua desigualdade social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a tecnologia virtual configurou um divisor de \u00e1guas nos perguntamos ainda como ela incidiu nas manifesta\u00e7\u00f5es de luto na&nbsp;&nbsp; atualidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que temos agora &nbsp;\u00e9 &nbsp;uma \u201cmem\u00f3ria\u201d microsc\u00f3pica sobre fen\u00f4menos sociais que foram vivenciados no dia a dia das not\u00edcias, ouvindo ou lendo&nbsp; falas e partilhando sentimentos de dor, desespero e inconformismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O contexto&nbsp; &nbsp;sobre o qual nos &nbsp;voltamos tamb\u00e9m foi composto pela circula\u00e7\u00e3o de textos emitidos por integrantes de Face-Book, pessoas, em &nbsp;geral, &nbsp;com forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, idade acima&nbsp; de 40 anos, moradores de distintos lugares e com interesses variados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Relativizando: imaginamos o Face-Book como o \u00e1gora onde se reuniam os cidad\u00e3os gregos para falar da p\u00f3lis e seus acontecimentos. Como atores constru\u00edmos pap\u00e9is nas rela\u00e7\u00f5es em curso, improvisando nossos perfis neste fant\u00e1stico teatro no qual&nbsp; &nbsp;nem sempre conhecemos presencialmente nossos interlocutores. Rela\u00e7\u00f5es fantasmag\u00f3ricas e desmaterializadas nos entrela\u00e7am.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Observamos, ainda, no per\u00edodo pand\u00eamico, que as missas de s\u00e9timo dia passaram a ser online ou na modalidade \u201cflex\u201d, ao mesmo tempo online e presencial, como mostraram os jornais e a internet.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tecnologia online, no \u00e2mbito das redes sociais, mais explicitamente no Face-Book e Instagram publicou mat\u00e9rias sobre \u00f3bitos de formas semelhantes \u00e0quelas comuns nos obitu\u00e1rios e not\u00edcias f\u00fanebres nos jornais. Essa ferramenta foi usada para homenagear o morto atrav\u00e9s das postagens de textos e fotos que marcaram &nbsp;&nbsp;momentos e caracter\u00edsticas expressivas dos mortos. Pode ser observado que esta \u00e9 uma pr\u00e1tica que persiste e se integrou ao modo de vida de grande fatia da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cremos que as formas de express\u00e3o&nbsp; est\u00e3o em muta\u00e7\u00e3o num movimento j\u00e1 incorporado por grande parcela da sociedade, e&nbsp; assim se manter\u00e1 por sua efic\u00e1cia simb\u00f3lica, permanecendo a comunica\u00e7\u00e3o da solidariedade, a import\u00e2ncia de marcar as fases do luto, da purga\u00e7\u00e3o da dor, tanto uma catarse quanto um al\u00edvio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas express\u00f5es de luto significam que as redes sociais s\u00e3o um espa\u00e7o digno e valorizado para essas manifesta\u00e7\u00f5es, at\u00e9 porque elas s\u00e3o dirigidas aos participantes da rede que podem ser mais ou menos pr\u00f3ximos daquele que se expressa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O v\u00edrus em a\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As muta\u00e7\u00f5es de comportamento desde o surgimento intempestivo do v\u00edrus ocorreram em locais diversos: escolas lojas, bares, reuni\u00f5es de diversos tipos, como grupos de estudo on line, aulas, defesas de tese e disserta\u00e7\u00e3o, semin\u00e1rios, confer\u00eancias , enfim in\u00fameros tipos de rela\u00e7\u00f5es sociais . Vale a pena dizer que mantemos todas essas modalidades no cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A gest\u00e3o e controle dos corpos em hospitais, cl\u00ednicas, postos de vacina\u00e7\u00e3o e consult\u00f3rios ocasionou um distanciamento mais radical, afetando mesmo os que apresentavam risco m\u00ednimo de contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No cume da pandemia, muitos doentes de COVID-19 internados morriam tragicamente sem a presen\u00e7a de um parente, que guardaria para sempre o trauma de n\u00e3o poder se despedir do seu familiar. \u00c9 de notar a evita\u00e7\u00e3o do corpo do defunto. Ao contr\u00e1rio de tudo que se viveu antes, n\u00e3o se tocava na pessoa morta sentida como t\u00f3xica. Em ocasi\u00f5es precedentes at\u00e9 o advento da pandemia, a despedida do morto era manifestada atrav\u00e9s de toques de carinho, por um beijo na testa, pela proximidade ao caix\u00e3o. Enfim, amor e afeto transbordavam em l\u00e1grimas e gestos no lugar do medo do cont\u00e1gio letal que a proximidade do ser amado significava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os vel\u00f3rios no in\u00edcio da pandemia configuravam-se, quase sempre, como um ato solit\u00e1rio, sendo o caix\u00e3o, em geral, fechado pelo receio da contamina\u00e7\u00e3o. Familiares e amigos foram, em v\u00e1rios casos exclu\u00eddos, por precau\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, de comparecer e dar a sua parcela de solidariedade. Essa cerim\u00f4nia foi profundamente afetada conforme estamos comentando. Tradicionalmente constituiu-se como um momento no qual parentes e amigos poderiam cercar o morto, v\u00ea-lo pela \u00faltima vez, despedirem-se. Instante durante o qual, entre si, as pessoas falavam de suas mem\u00f3rias. Ap\u00f3s a cerim\u00f4nia os presentes se dispersavam e muitas vezes em grupos continuavam juntos numa refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Constatamos uma mudan\u00e7a radical na express\u00e3o dos sentimentos de luto. O valor da vida, a auto &nbsp;preserva\u00e7\u00e3o, colocou-se acima e al\u00e9m de qualquer outro afeto nesse per\u00edodo. Ou n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se Ant\u00edgona usou suas pr\u00f3prias m\u00e3os para sepultar seu irm\u00e3o, se antes da pandemia o nosso morto era deposit\u00e1rio de nossas derradeiras car\u00edcias, a pandemia transformou nossos sentimentos e a express\u00e3o de nossos afetos. O corpo vitimado por corona v\u00edrus ficou sendo algo a ser evitado, lacrado, posto \u00e0 dist\u00e2ncia; um corpo que poderia ser transmissor da morte, t\u00f3xico, amea\u00e7ador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os comportamentos de evita\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria apagaram momentos de confraterniza\u00e7\u00e3o, t\u00e3o preciosos, no ritual de separa\u00e7\u00e3o e despedida. A evita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma energia passiva, \u00e9 um afastamento, uma for\u00e7a que se op\u00f5e ativamente e, neste sentido, o contr\u00e1rio de como, at\u00e9 se sentiu e se expressou a perda de um ente querido em tempos anteriores \u00e0 pandemia. Dir\u00edamos que \u00e9 uma for\u00e7a estranha, desconhecida at\u00e9 ent\u00e3o que, ostensivamente se contrap\u00f5e \u00e0 proximidade do corpo COVID-19. \u00c9 a for\u00e7a da preserva\u00e7\u00e3o da vida antes de tudo. \u00c9 a emerg\u00eancia do cru e ag\u00f4nico instinto de vida em toda a sua nudez e viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, o medo do corpo-COVID-19 n\u00e3o deixou de gerar um empenho ferrenho de salvar parentes. No auge da pandemia os esfor\u00e7os desesperados das pessoas para comprar respiradores foram obstaculizados pela indiferen\u00e7a do governo central e por golpes de revendedores, o que acabou vitimando os que lutavam em prol da vida das v\u00edtimas sem recursos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As cenas que presenciamos em Manaus s\u00e3o inesquec\u00edveis: doentes transportados para outros estados e covas rasas para receber os mortos que se empilhavam. Esse epis\u00f3dio desnudou a trag\u00e9dia das covas rasas sendo cavadas \u00e0s pressas al\u00e9m de cemit\u00e9rios alargados para acolher, de forma abrupta e indevida, como em momentos de guerra, os mortos da trag\u00e9dia. Um espet\u00e1culo devastador em qualquer sentido \u00e9tico e humanista do luto (4). Ao que acrescentamos as distin\u00e7\u00f5es e desigualdades existentes nos cuidados sanit\u00e1rios, nos rituais de sepultamento; enfim, nas condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, econ\u00f4micas e socioculturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais tarde a libera\u00e7\u00e3o das vacinas trouxe outros comportamentos sociais. Nos postos de vacina\u00e7\u00e3o foram registradas cenas de emo\u00e7\u00e3o que, por vezes, se expressavam em pranto dos que eram vacinados. Um horizonte poderia ser almejado, a popularmente express\u00e3o denominada: \u201cluz no fim do t\u00fanel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Destacamos, em todo esse processo, fotos tiradas como mem\u00f3ria deste momento, algumas postadas nas redes sociais. O al\u00edvio era relatado e o desejo de circular sem tantos riscos comunicado pelos vacinados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Frequentemente foram feitos agradecimentos ao SUS (Sistema&nbsp; \u00danico de Sa\u00fade). Surgiram os passaportes vacinais&nbsp; e eram exibidos os atestados tanto de vacina\u00e7\u00e3o quanto aqueles que mostravam que o indiv\u00edduo estava livre da epidemia e n\u00e3o oferecia perigo ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas redes digitais, nas trocas de informa\u00e7\u00f5es acerca da sa\u00fade de parentes e amigos, surgiram novas sociabilidades no uso de Correio Eletr\u00f4nico, Face-Book, WhatsApp, Instagram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em s\u00edntese, com celulares e computadores geramos e mantemos n\u00e3o s\u00f3 novas t\u00e9cnicas corporais como outras \u201cexpress\u00f5es obrigat\u00f3rias dos sentimentos\u201d, outros c\u00f3digos sociais (Mauss, 1979, p.147). Tempo de linguagem digital para elaborar o luto. Comunica\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia, remota, mas sempre social e, nesses termos, \u201cobrigat\u00f3ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora todas as pessoas, independentemente de sua classe social ou econ\u00f4mica, poderiam ser v\u00edtimas da COVID-19, \u00e9 importante ressaltar que as rela\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas marcaram possibilidades de cura e recupera\u00e7\u00e3o desiguais aos atingidos pelo v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Aprendizagens e Vida Social<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o obstante toda autodefesa em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo permaneceu, durante a pandemia, a obriga\u00e7\u00e3o de enterrar e cremar os mortos de forma digna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora, no mundo digital, o pr\u00f3ximo e o distante tenham sido ressignificados e, em certo sentido, coartados, a mem\u00f3ria de Ant\u00edgona se fez viva entre n\u00f3s, herdeiros da civiliza\u00e7\u00e3o grego \u2013latina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dir\u00edamos como hip\u00f3tese emergente dessas reflex\u00f5es que a &nbsp;trag\u00e9dia de Ant\u00edgona est\u00e1 presente em nossa mem\u00f3ria ancestral. \u00c9 parte dos dias de hoje e dos significados do momento de separa\u00e7\u00e3o. Neste sentido n\u00e3o custa lembrar que os rituais s\u00e3o de certa forma para quem fica, n\u00e3o para quem morre, sendo que as hist\u00f3rias que significam etapas do processo de luto t\u00eam cunhos religiosos e sociais e se passam segundo regras diferenciadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na pandemia do &nbsp;corona v\u00edrus observamos nas redes sociais a partilha obrigat\u00f3ria de express\u00f5es que sempre nos serviram para comunicar pesar: \u201cAcaba de nos deixar, tristeza, meus sentimentos, p\u00easames, sem palavras&#8230;\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, nessas mensagens, a for\u00e7a da solidariedade, dor e apoio coletivo e social de forma an\u00e1loga aos cantos e discursos nos funerais presenciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As palavras de condol\u00eancias, acima citadas, podem soar estereotipadas e o s\u00e3o <em>obrigatoriamente<\/em>, mas expressam nossas emo\u00e7\u00f5es; por serem sociais h\u00e1 que comunic\u00e1-las. Insistimos nessa interpreta\u00e7\u00e3o marcando a for\u00e7a dos sentimentos que t\u00eam as dimens\u00f5es complexas, que se fundem e, em suma, se constituem como <em>linguagem<\/em>. Insistimos, n\u00e3o serem apenas espont\u00e2neas, por serem, antes de mais nada obrigat\u00f3rias porque sociais e por comunicarem a <em>linguagem<\/em> do luto. A complexidade dessa postura reside no entendimento que, embora ela n\u00e3o possa ser reduzida ao campo social, abrange o n\u00edvel psicol\u00f3gico e afetivo. Trata-se de uma <em>a\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica <\/em>(M.Mauss, p. 153, 1979), que ao inv\u00e9s de subtrair, refor\u00e7a os sentimentos e suas express\u00f5es fisiopsicol\u00f3gicas, reiterando, em lugar de diminuir, a intensifica\u00e7\u00e3o de&nbsp; suas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre n\u00f3s, contrastando ontem e hoje, o dia de finados, 2 de novembro era, at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX, dia de recolhimento e sil\u00eancio, dia dos mortos em que se levavam flores aos t\u00famulos dos familiares e pessoas pr\u00f3ximas falecidas. Igualmente as sepulturas de grandes artistas ou personalidades populares eram visitadas e homenageadas. Embora envolvendo um n\u00famero menor de pessoas na visita aos cemit\u00e9rios a oferenda de flores permaneceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Houve \u00e9poca n\u00e3o muito distante em que os homens &nbsp;&nbsp;usavam uma faixa preta \u00e0 volta das mangas de seus ternos ou camisas e as mulheres vestiam preto, mesmo nas grandes cidades, durante os rituais de despedida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje est\u00e3o dissociadas as cores das roupas com a linguagem do luto. Essa forma de comunica\u00e7\u00e3o saiu de consenso na interpreta\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o da dor e dos sentimentos de pesar&nbsp; &nbsp;nos meios urbanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Indagamos: ser\u00e1 que apesar dos cremat\u00f3rios, que demonstram novos comportamentos e afetos, o significado simb\u00f3lico do sepultamento de um corpo ainda nutriria o sentimento de enterrar uma semente? Semente (5) que frutificaria em outras vidas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossa hip\u00f3tese <em>ad hoc <\/em>\u00e9 que as diversas formas de enterrar o <em>karpo <\/em>(5)<em> (<\/em>ou suas cinzas espalhar) &nbsp;o fazemos em nome de uma poss\u00edvel continua\u00e7\u00e3o da vida. Enterrar dignamente e\/ou dispor das cinzas do corpo do morto significaria plantar: um ritual social, que pode ser evocado no <em>luctus<\/em> latino.&nbsp; Uma heran\u00e7a imaterial, simb\u00f3lica, um patrim\u00f4nio da humanidade, um legado de gera\u00e7\u00f5es e grupos sociais milenares que na fluidez dos tempos imemoriais passa por descontinuidades mas continua na nossa tradi\u00e7\u00e3o ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos hoje dizer que os anos 2021 e 2022, foram classificados como o per\u00edodo da pandemia.&nbsp; Hoje as campanhas exitosas de vacina\u00e7\u00e3o contra o v\u00edrus mudaram a paisagem, embora n\u00e3o o tenham extirpado. Precisamos dizer que a vacina\u00e7\u00e3o contra o COVID-19 foi irresponsavelmente boicotada no governo anterior , mas que em 2023 o esfor\u00e7o vacinal retornou. Os casos de morte por COVID-19 ainda exigem certos cuidados como o caix\u00e3o lacrado para enterro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Percebemos que certas pr\u00e1ticas criadas durante a pandemia ainda permanecem, mas n\u00e3o com a intensidade, obrigatoriedade, tampouco o sentimento de medo. Lembramos, nessa linha o uso indispens\u00e1vel de m\u00e1scaras e a disponibilidade do \u00e1lcool para higiene das m\u00e3os em hospitais, cl\u00ednicas, consult\u00f3rios e farm\u00e1cias sobretudo para aqueles que ali trabalham enquanto \u00e9 optativo para os demais frequentadores. Por outro lado, em lugares fechados como cinemas e teatros encontramos alguns expectadores protegidos. Nas ruas isto \u00e9 raro e em institui\u00e7\u00f5es como universidade e escolas liberado.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(1) Per\u00edodo de pandemia. <em>Pan <\/em>sinaliza tudo e, <em>demos<\/em>, todos, indicando a dimens\u00e3o do v\u00edrus que atingiu todo o planeta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(2) Entendemos ritual, seguindo a linha de interpreta\u00e7\u00e3o de Mariza Peirano, &nbsp;como um marco que d\u00e1 sentido simb\u00f3lico a um momento de \u201cpassagem\u201d, ou outro, considerado excepcional e pleno de significado na vida social por aqueles que o vivenciam.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(3) Ant\u00edgona \u00e9 uma das trag\u00e9dias de S\u00f3focles. Escrita por volta de &nbsp;442 a.C., faz parte do denominado \u201cciclo tebano\u201d, composto de tr\u00eas pe\u00e7as, sendo Ant\u00edgona a primeira delas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(4) Acerca do luto vale a pena rememorar a passagem do livro de Joseph Conrad, <em>O cora\u00e7\u00e3o das trevas<\/em>, em que o narrador da hist\u00f3ria se encontra com a noiva (no texto, a \u201cpretendida\u2019) do personagem principal do romance, Kurtz: \u201cEla se adiantou, toda de negro, rosto p\u00e1lido, flutuando na penumbra para mim. Estava de luto, mais de um ano ap\u00f3s a chegada da not\u00edcia: parecia que ia lembrar e manter o luto para sempre.\u201d (Conrad, p. 121)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(5) Karpos: corpo, significa fruto, semente.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AMADO, Jorge \u2013 <strong>A morte e a morte de Quincas Berro d\u00b4agua<\/strong>, Editora Record, SP, 1978.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DAUSTER, Tania ; Garcia Pedro Benjamim \u2013 Somos Ant\u00edgona? in Joana de Vilhena Novaes e Junia de Vilhena (org) O Corpo que Resta &#8230;CORPO, LUTO E MEM\u00d2RIA, Appris editora 2022<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CONRAD, Joseph. <strong>O cora\u00e7\u00e3o das trevas<\/strong>, Editora Saraiva de bolso\/Nova Fronteira, RJ, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MELO NETO, Jo\u00e3o Cabral de \u2013 Morte e vida Severina, in <strong>Serial<\/strong> <strong>e antes<\/strong>, Editora Nova Fronteira, RJ, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MAUSS, Marcel. <strong>Sociologia e Antropologia<\/strong> (vol. II), Editora pedag\u00f3gica e universit\u00e1ria ltda.\/ Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo (EDUSP) SP, 1974.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">OLIVEIRA, Roberto Cardoso de (organizador) e FLORESTAN Fernandes (coordenador). <strong>Mauss<\/strong>, Editora \u00c1tica, SP, 1974.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tania Dauster Pergunta frequente no per\u00edodo da pandemia (1): o que ocorrer\u00e1 na p\u00f3s-pandemia? 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