{"id":1577,"date":"2023-05-04T09:55:15","date_gmt":"2023-05-04T12:55:15","guid":{"rendered":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/?p=1577"},"modified":"2023-05-04T09:59:39","modified_gmt":"2023-05-04T12:59:39","slug":"o-comum-num-dia-comum-do-espaco-luiz-estrela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/2023\/05\/04\/o-comum-num-dia-comum-do-espaco-luiz-estrela\/","title":{"rendered":"O comum num dia comum do Espa\u00e7o Luiz Estrela"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Por Sandra Pereira Tosta<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">Dia: 15\/11\/2014- S\u00e1bado     Entre 14:30h e 16:00h<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"279\" height=\"211\" src=\"https:\/\/redeargonautas.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1578\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Faixada do Espa\u00e7o Comum Luiz Estrela.<br>Foto de Thais Nogueira Gil.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"268\" height=\"206\" src=\"https:\/\/redeargonautas.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1579\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Faixada do casar\u00e3o com o bras\u00e3o de uma cruz na parte superior.<br>Foto de Thais Nogueira Gil.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><strong>Registros de uma primeira viagem&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao sair do carro estacionado em frente ao Espa\u00e7o, o casar\u00e3o aparece em obras e com escoras. Um estandarte tem desenhado uma estrela com a imagem de Luiz ao centro. Dois outros cartazes chamam a aten\u00e7\u00e3o pelas mensagens: solidariedade, doa\u00e7\u00e3o e amizade.<\/p>\n\n\n\n<p>As ruas do entorno est\u00e3o inquietantemente calmas, n\u00e3o se v\u00ea quase nenhuma pessoa. Uma ou outra; uma vizinha chega com compras e entra num pr\u00e9dio em frente. Eu entro no p\u00e1tio do Espa\u00e7o que est\u00e1 impecavelmente limpo e organizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Me apresento a uma pessoa cujo nome em latim significa Vida, que vem ao meu encontro e me recepciona. Um rapaz mag\u00e9rrimo, com cal\u00e7as justas, t\u00eanis branco e rosa, uma \u201cmeia\u201d numa perna, camiseta colada e um colete bem pequeno de l\u00e3. Est\u00e1 com o rosto carregado de base rosada, o cabelo \u00e9 bem loiro e baixo. Pouco depois sairia para o fundo do quintal para lavar o rosto e escovar os dentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida, Vida me apresenta a Ozires. Um rapaz que se sente mulher, me dir\u00e1 ele, depois de um tempinho de conversa. Tamb\u00e9m muito magro, cal\u00e7a jeans e uma malha que parece aquece-lo de um frio por ele sentido e confessado a n\u00f3s. Ozires est\u00e1 deitado num dos sof\u00e1s- s\u00e3o v\u00e1rios, naquele canto aos fundos do p\u00e1tio.<\/p>\n\n\n\n<p>Vida me oferece ch\u00e1 mate e eu aceito de bom grado, perguntando se est\u00e1 ado\u00e7ado. N\u00e3o est\u00e1 e eu encho um copo que Ozires se preocupa em vistoriar se est\u00e1 limpo. O copo \u201clagoinha\u201d guarda no seu fundo um pouquinho de a\u00e7\u00facar apenas e digo a ele que \u201cn\u00e3o se preocupe, est\u00e1 \u00f3timo assim\u201d. Com meio copo de ch\u00e1 na m\u00e3o, sento-me numa das cadeiras ao lado de um sof\u00e1 onde Vida est\u00e1 recostado, quase deitado. O ambiente \u00e9 leve, acolhedor e silencioso sonorizado por cantos dos muitos p\u00e1ssaros que batem asas por ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Conversamos sobre v\u00e1rias coisas: a casa, as obras, o teatro, a Pedagogia Libert\u00e1ria que acontecer\u00e1 amanh\u00e3, domingo. N\u00e3o sabem me dizer precisamente a hora. Ozires parece ser um h\u00f3spede no Espa\u00e7o. Fala da vida dele, do tanto que foi abusado sexualmente pelos irm\u00e3os mais velhos. Teve vontade de mat\u00e1-los e se matar! N\u00e3o fez isto e os irm\u00e3os hoje s\u00e3o todos evang\u00e9licos, comenta ironicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta confiss\u00e3o vem \u00e0 tona porque, \u00e0quelas alturas, Vida me mostrava um livro de uma moradora de rua- ou ser\u00e1 na rua? Que andarilhou pelas ruas da cidade de S\u00e3o Paulo e se matou. Enquanto viveu contou com o apoio do deputado estadual, Eduardo Suplicy e outras pessoas importantes de l\u00e1: intelectuais, diz Vida. Eu folheio o livro e digo que vendeu muito, pois, aquele exemplar que t\u00ednhamos nas m\u00e3os j\u00e1 era a 18\u00ba edi\u00e7\u00e3o. Ed. Vozes.<\/p>\n\n\n\n<p>HERZER, \u00e9 o codinome da moradora cujo rosto estampado na capa do livro-A Queda para o alto, hoje, na 25\u00aa edi\u00e7\u00e3o, transmite um olhar sereno e calmo, bonito, como sereno e calmo era o ambiente do Luiz Estrela naquele meio de tarde que passei por l\u00e1. Vida l\u00ea poemas de Herzer para mim e eu me encanto com o texto.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Minha m\u00e3e era uma mulher vulgar. Nem minha, nem de minha irm\u00e3; nem de Jo\u00e3o, Pedro ou Jos\u00e9. De todos ao mesmo tempo sozinha.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu queria ser da noite o sereno<\/p>\n\n\n\n<p>e umedecer o vale seco e pequeno.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu queria, no dia claro, luzir<\/p>\n\n\n\n<p>para o amor todo o povo conduzir.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu queria que branca fosse a cor da terra<\/p>\n\n\n\n<p>e n\u00e3o vermelha para inspirar a guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu queria que o fogo me cremasse<\/p>\n\n\n\n<p>para ser as cinzas de quem hoje nasce.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu queria que os belos poemas fossem de Deus<\/p>\n\n\n\n<p>para neles encontrar as virtudes dos irm\u00e3os meus.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu queria, muito queria saber ganhar<\/p>\n\n\n\n<p>para as simples alegrias poder comigo guardar.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu queria, como queria, saber perder<\/p>\n\n\n\n<p>para de ti, agora, tanta saudade n\u00e3o ter.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu queria morrer nesse instante sozinho<\/p>\n\n\n\n<p>para novamente ser embri\u00e3o e nascer<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 eu s\u00f3 queria nascer de novo, para me ensinar a viver!<\/p>\n\n\n\n<p>(Anderson Herzer como ela passou a se autodenominar depois de assumir uma identidade masculina, encontrou na morte os fins de seus dramas. Contracapa do livro)<\/p>\n\n\n\n<p>Vida e Ozires comentam sobre o bloco de carnaval que est\u00e1 sendo organizado, v\u00e3o homenagear a poeta Hezer. \u201cHomens se vestir\u00e3o de mulher e mulheres de homem\u201d, dizem, pra \u201cmostrar que sexo pouco importa\u201d. Ozires disse que vai se sentir \u201clinda\u201d!<\/p>\n\n\n\n<p>Aproveito para dizer que tenho no carro uma sacola de livros, quando Vida me explica sobre o sistema de empr\u00e9stimos da biblioteca do Casar\u00e3o- na verdade um amontoado de livros e outros tantos espalhados num dos c\u00f4modos do ECLE, onde, pouco depois transitava acompanhada de Ozires que me apresentava o Espa\u00e7o. \u201cAqui ainda vamos organizar sabe Sandra&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, num outro c\u00f4modo, Ozires me mostra sacos de roupas que eles ainda v\u00e3o separar, ver o que se pode aproveitar, doar&#8230;\u201d. Pergunto pela Feira de artes que deve acontecer no pr\u00f3ximo s\u00e1bado- 22\/11, ele diz n\u00e3o saber sobre isto.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltamos para o p\u00e1tio e neste meio tempo Vida escovava os dentes numa \u201cpia\u201d improvisada que tamb\u00e9m serve \u00e0 cozinha da casa- instalada debaixo de lonas no canto esquerdo de quem entra. Comento sobre quando chove&#8230;\u201d a gente lava tudo de novo&#8230;\u201d Eu brinco: \u201c\u00c9 isto, lavou t\u00e1 novo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Pergunto por outra pessoa do Espa\u00e7o, Ozires me responde: \u201csaiu com um tanto de gente ontem numa Kombi, acho que foram prum retiro&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Chega outro rapaz que n\u00e3o sei ou, neste momento, n\u00e3o me lembro do nome. Vai pros fundos do p\u00e1tio para tomar banho. Vida diz que escovou os dentes, pois quer beijar muito na festa. Me pergunta como ele est\u00e1, como eu acho que ele est\u00e1. Na verdade, a mesma roupa com o acr\u00e9scimo de um casaco tipo bolero de brim c\u00e1qui. Ozires diz que o colete de baixo n\u00e3o est\u00e1 bem. Vida, dissera ele pouco antes, me olha, se olha e tira a tal pe\u00e7a e joga na bolsa: \u201cfica aqui pra quando esfriar&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Nestas alturas entra um mo\u00e7o \u201cbonito\u201d que faz Ozires tremer, segundo diz ele mesmo. Pergunto quem \u00e9 aquele mo\u00e7o moreno, de coturnos, roupas mais escuras. Ozires explica que ele \u00e9 guarda da escola do lado, \u201cest\u00e1 sempre aqui com a gente, nos ajuda a vigiar, a seguran\u00e7a, sabe como \u00e9&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Vida sai com um andar elegante e nada exagerado, leve&#8230; Eu tamb\u00e9m saio acompanhada de Ozires que apanha a sacola de livros. Volto pra casa pensando naquela viv\u00eancia, curta, por\u00e9m intensa&#8230; Preciso ter mais tempo para vivenciar o Espa\u00e7o Comum Luiz Estrela.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Sandra Pereira Tosta Dia: 15\/11\/2014- S\u00e1bado Entre 14:30h e 16:00h Registros de uma primeira viagem&#8230; Ao sair do carro estacionado em frente ao Espa\u00e7o, o casar\u00e3o aparece em obras [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":10,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_EventAllDay":false,"_EventTimezone":"","_EventStartDate":"","_EventEndDate":"","_EventStartDateUTC":"","_EventEndDateUTC":"","_EventShowMap":false,"_EventShowMapLink":false,"_EventURL":"","_EventCost":"","_EventCostDescription":"","_EventCurrencySymbol":"","_EventCurrencyCode":"","_EventCurrencyPosition":"","_EventDateTimeSeparator":"","_EventTimeRangeSeparator":"","_EventOrganizerID":[],"_EventVenueID":[],"_OrganizerEmail":"","_OrganizerPhone":"","_OrganizerWebsite":"","_VenueAddress":"","_VenueCity":"","_VenueCountry":"","_VenueProvince":"","_VenueState":"","_VenueZip":"","_VenuePhone":"","_VenueURL":"","_VenueStateProvince":"","_VenueLat":"","_VenueLng":"","_VenueShowMap":false,"_VenueShowMapLink":false,"footnotes":""},"categories":[24,26,28],"tags":[12,10,30],"class_list":["post-1577","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ensaios","category-etnografia","category-relato","tag-antropologia","tag-etnografia","tag-pesquisa-de-campo"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1577","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1577"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1577\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1581,"href":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1577\/revisions\/1581"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1577"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1577"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redeargonautas.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1577"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}